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Este
poema foi lido pela deputada Janete Pietá para finalizar a sessão
especial realizada na câmara dos deputados em homenagem ao Dia Internacional
Pela Eliminação da Discriminação Racial em
Brasília aos 30 de março de 2009.
ASAS PARA VOAR
Contra mim puseram o meu
irmão
Deram-lhe espada, arcabuz e canhão.
Os que ontem comigo cearam
No alvorecer para me mutilar, matar e capturar voltaram.
Desgastado, machucado, cacetado e quebrado
Assim começou a infinita caminhada no tempo e no espaço.
Correntes e algemas comendo a pele do meu corpo
Ao passo que seguia a angustiada espera pelos temidos navios.
Escravos, Badagry, Elmina, Gorée.
Lugares próximos à minha casa muito estranhos portanto
E pontos de ida sem volta
De onde iniciou-se a travessia do mar.
As terras que jamais reverei
Ficando pouco a pouco para atrás do nascer do sol
Madeira rangida, línguas bizarras, sons de aflição
Ecoando dentro do odor do medo
Pele queimada pelo ardor do sol e
Empolada pelos ventos salgados,
O cheiro fétido de carne podre
Acenando para os tubarões a barriga encher.
Me arrancaram a minha dignidade.
Me deitaram lá nos cais de Charleston,
De Pernambuco, de Salvador e de Kingston
Chiqueiros do inferno, repletos de gentes miseráveis.
Por quatrocentos anos me calaram
Com a bruta força dos chicotes e das espingardas
Um burro de carga a trabalhar nos campos
De cana e de algodão, de milho e de café.
Com o meu suor irriguei a imensa terra
Com as minhas mãos calejadas extrai as riquezas da terra
Com a minha barriga generosa pari as novas gerações
De barões e viscondes, de príncipes e reis
Ainda assim aqui sou eu oprimido mas não batido.
O herói trágico e silencioso da nossa pátria amada
Acorrentado pelos caprichos de legislação indiferente
Estorvado por anos de discriminação.
Agora a minha parte requeiro
E esperando por um novo futuro.
Dês-me as minhas asas para
Que como tu e contigo possa voar.
KG
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